Pelo DIREITO de SER MULHER

Por:

Denise da Mata
08/03/18
“Raspe as tintas com que pintaram seus sentidos.
Desembrulhe-se, E seja você mesma.”

Li essa frase quando adolescente e fui tocada profundamente por ela. Lembro-me de erguer meus olhos em direção ao céu bem azul que se exibia através da janela do ônibus e me perguntar: que cores eu realmente tenho por trás das tintas com que me pintaram? Desde então, um princípio se solidificou em minha alma: desembrulhar-me diariamente para buscar a mim mesma.

Olhando para aquela adolescente reflexiva com os olhos da mulher que sou hoje, pergunto-me que tarefa complicada recai sobre nós: ser a mulher que queremos SER, em meio a um mundo sexista, que disfarça seus preconceitos com discursos sutilmente recheados de um machismo moderno, que cuidadosamente oprime as mulheres continuamente, pintando-nos com tintas de estereótipos que estimulam a futilidade e a cultura do estupro.

Há exatamente 107 anos atrás, 130 mulheres morreram carbonizadas, presas em uma fábrica têxtil, porque reivindicavam o mínimo de dignidade em seu ambiente de trabalho. De todas as mensagens que li hoje nas redes sociais a respeito do Dia da Mulher, apenas uma lembrava esse fato.


Mas e por que lembrar esse fato?


Porque a luta delas é a NOSSA LUTA! É uma luta que ainda persiste e agrega cada vez mais violações de direitos básicos pelos quais lutar. Estamos muito longe de viver numa sociedade que nos respeite e honre minimamente.

Dói-me a alma ver nossos corpos expostos ao lado de mercadorias à venda, como um brinde a ser recebido pelo que se compra. Não acho graça de quadros de humor e piadinhas que apresentam o estereótipo da mulher “burra”, “gostosa” e interessada no cartão de crédito do marido para ir ao shopping e ao salão de beleza. E a questão aqui não é se é bom ou ruim escolher ser assim. A questão é: criaram para nós paradigmas que nos diminuem e escravizam, que nos tornam objeto sexual e escondem o que temos para acrescentar de fato ao mundo: nossa essência humana, nossas ideias, nossa força de espírito.

Lembro-me de me olhar no espelho quando estava com 9 meses de gravidez, inchada, dolorida e absolutamente amedrontada, pensando em como eu certamente perderia o meu companheiro porque não era mais capaz de ser atraente, de ser desejável. Ele jamais me cobrou isso ou me deu razões para me sentir diminuída, mas nossa cultura incute em nós uma fixação por estar sempre bem, sempre magras, sempre disponíveis, sempre bem humoradas, sempre arrumadas, para não “perder” o casamento, para não “perder” o respeito no emprego, para não isso, para não aquilo...

Tantas tintas pesadas recaem sobre nós e reforçam sutilmente uma posição de “servidoras contínuas” em uma sociedade que vê a sexualidade de uma forma tão perversa e pervertida, que é difícil não se amedrontar em momentos de fragilidade.

Milhares de mulheres apanham caladas, todas as dias, com medo de denunciarem seus parceiros e sofrerem ainda mais preconceitos caso as agressões venham a tona. Outras tantas ouvem todos os dias piadas desrespeitosas em locais públicos ou no próprio ambiente de trabalho, e sentem-se humilhadas por saberem que isso é considerado comum. Isso sem mencionar a sobrecarga nos trabalhos domésticos e cuidados com os filhos, que na grande maioria das vezes se acumulam com as atividades profissionais, o que nos dá realmente pouco tempo para sequer nos olhar no espelho.

Devo me maquiar todos os dias e subir em cima de um salto alto? Talvez sim, nos dias em que isso fizer sentido pra mim. E provavelmente não, nos dias em que meus pés estiverem doendo e eu não estiver disposta a colocar mais tintas no rosto. Isso não diminui minha capacidade de Ser Mulher, de Ser Profissional e de Ser a pessoa que sou. Quero encantar o mundo por minhas ideias, por minha luta, por minhas ações, e não pela aparência que tenho ou por ter me encaixado em padrões sociais pré estabelecidos. Tenho o direito de Ser Mulher como, onde e quando eu quiser, assim como tenho o direito de em alguns dias ser apenas mãe, ou apenas filha, ou nada especificamente. Meu corpo é meu e de mais ninguém, e não importa se ele está acima do peso ou não, arrumado ou não: seja de que maneira for, mereço respeito e exijo isso.

Não somos mercadoria, nem piada, nem carnes de açougue que esperam pra ser consumidas. Não somos empregadas, nem saco de pancadas, nem mão de obra barata que merece ser explorada. Somos mais da metade da população mundial e mães da outra metade. Somos seres que detém um papel muito maior do que os programas de humor dos anos 90 mostravam. Somos infinitamente mais do que as músicas da moda expõe.

Obrigada imensamente a todos os que nos parabenizaram pelo dia de hoje. Mas o dia da mulher é um dia de reflexão sobre nossa luta, sobre nosso direito de ter valor, de ser quem somos, sobre nosso direito de estar onde queremos estar sem sermos julgadas ou rotuladas.

Que raspemos as tintas de todos os paradigmas com que nos pintaram. Que não sejamos mais “as santas” ou “as putas”, ou que sejamos se esse for o desejo de nossa essência. Mas que seja apenas pelo desejo de nossa própria essência e não para compor o quadro de um pintor qualquer.

Nesse dia 08 de março de 2018, envio meu carinho e solidariedade ao coração de cada mulher que tem coragem de ser quem é, independente de tudo o mais a sua volta. Que cada uma saiba que essa luta é nossa, que nossas companheiras que morreram queimadas há 107 anos atrás também lutavam pra ser elas mesmas e não morreram em vão, pois vivem hoje em cada uma de nós que enfrenta os incêndios dessa sociedade doente em que estamos presas.

Que consigamos raspar as tintas do machismo evidente ou camuflado, desconstruir todas as regras que nos ensinaram para nos erguer alicerçadas em apenas um valor: o Amor por nós mesmas e pelo mundo a nossa volta, o Amor que nos dá o Direito de Sermos Mulheres, não da maneira como nos ensinaram, mas da maneira que escolhemos ser todos os dias de nossa vida. Esse é o objetivo! Essa é a reflexão de hoje!